O agressor pode mudar?

Sim, mas ele precisa querer — e buscar tratamento especializado.

DIREITO DA MULHER

Por Dra. Rejane Martins Advogada Especialista em Violência Doméstica e Direito das Mulheres

É essencial deixar claro: violência não é “falta de paciência”, “gênio forte” ou “nervosismo”.

Violência é um comportamento aprendido, repetido e sustentado por crenças distorcidas de poder e controle. E, por isso, não desaparece espontaneamente.

Para que um agressor realmente mude, são necessárias três coisas que raramente acontecem juntas:

  1. Reconhecimento sincero da própria conduta abusiva, sem justificativas ou distorções;

  2. Comprometimento real com tratamento especializado, conduzido por equipe multiprofissional;

  3. Constância ao longo do tempo, porque não existe “cura rápida” para padrões violentos.

E aqui está a verdade que poucos têm coragem de verbalizar:

  • A taxa de mudança real é baixa.

Não porque seja impossível, mas porque exige responsabilidade, esforço contínuo e enfrentamento de traços profundos de personalidade — e a maioria não quer fazer esse caminho. Muitos homens até cessam a agressão física quando sentem que perderam o controle… mas continuam mantendo as formas mais silenciosas e perigosas de violência:

  • Violência psicológica: Humilhação, gaslighting, intimidação, manipulação emocional.

  • Violência patrimonial: Controle de dinheiro, dívidas impostas, retenção de documentos, destruição de bens.

  • Coerção: Pressão constante, ameaças veladas, imposição de regras e decisões.

  • Perseguição e stalking: Rastreamento, vigilância, obsessão disfarçada de “preocupação”.

  • Controle emocional: Alternância entre afeto e agressão; pedidos de perdão que se repetem; ciclos de tensão e explosão.

Essas violências são tão devastadoras quanto a física — e muitas vezes mais difíceis de identificar e denunciar. Por isso, nenhuma mulher deve apostar sua segurança na promessa de mudança do agressor.

Promessas não são tratamento.

Lágrimas não são arrependimento.

Flores não são mudanças.

E palavras não são garantia de segurança.

A mulher não pode ser responsabilizada por acreditar, mas precisa ser orientada a compreender:

a proteção dela — e dos filhos — não pode depender da força de vontade de quem já provou que não sabe amar sem ferir. A mudança dele pode até existir. Mas a prioridade dela precisa ser sobreviver, se proteger e se reconstruir.