Por que é tão difícil sair de um relacionamento abusivo?

A pergunta adequada nunca foi “por que ela não vai embora?”, mas sim: “por que ele escolhe abusar?”

DIREITO DA MULHER

Por Dra. Rejane Martins Advogada Especialista em Violência Doméstica e Direito das Mulheres

A responsabilização precisa ser corretamente direcionada. A permanência da mulher no ciclo não revela consentimento, fraqueza ou comodismo: revela um conjunto de fatores psicológicos, sociais, econômicos e de risco real, que tornam a ruptura um processo complexo e perigoso.

Sob a perspectiva técnica, romper o ciclo de violência envolve enfrentar:

• Medo concreto de retaliação e feminicídio:

A fase do rompimento é estatisticamente o período de maior risco para a mulher. O agressor, ao perceber a perda de controle, intensifica ameaças, perseguições e ataques. O receio não é imaginário: é baseado em dados, histórico e instinto de sobrevivência.

Dependência financeira:

Muitas mulheres são afastadas do mercado de trabalho ou têm sua autonomia limitada exatamente para manter a relação de poder. Sem renda, sem reservas e, às vezes, com dívidas impostas pelo próprio agressor, a saída parece inviável.

Filhos em comum:

O agressor utiliza as crianças como instrumento de pressão — ora prometendo estabilidade, ora ameaçando retirá-las ou deixá-las desassistidas. A mulher teme desestruturar a rotina dos filhos ou expô-los a ainda mais violência.

Isolamento social planejado pelo agressor:

Uma das primeiras estratégias do abuso é afastar a vítima de familiares, amigos e redes de apoio. Sem suporte emocional ou material, a mulher sente que não tem para onde ir ou com quem contar.

Culpa e vergonha:

A violência é acompanhada de um processo contínuo de desvalorização, humilhação e inversão de responsabilidades. A mulher passa a sentir-se culpada pelo que sofre, como se não fosse digna de ajuda ou estivesse “exagerando”.

• Manipulação, chantagem emocional e gaslighting:

O agressor cria confusão mental, distorce fatos, alterna explosões com momentos de aparente carinho e usa ameaças veladas.

Esse ciclo alternado gera dependência emocional, esperança ilusória e uma falsa percepção de que “talvez ele melhore”.

• Falsas promessas de mudança:

O agressor pede desculpas, chora, promete tratamento ou mudança — não por arrependimento genuíno, mas para restabelecer o controle. A vítima, emocionalmente desgastada, agarra-se à esperança de reconstrução.

• Desgaste emocional profundo:

Com a autoestima destruída, a mulher perde a confiança na própria capacidade de decidir, reagir ou sobreviver sozinha. É o efeito acumulado de anos de violência psicológica.

Ninguém escolhe sofrer violência.

A mulher não deseja que o relacionamento termine — ela deseja que a violência termine.

Romper o ciclo é, antes de tudo, um ato de coragem, e não uma obrigação simplista. É por isso que a análise deve sempre recair sobre o agressor e sobre o sistema que permite que a violência se repita, jamais sobre a vítima.